Por que a classificação AO existe
A classificação AO/OTA (Arbeitsgemeinschaft für Osteosynthesefragen / Orthopaedic Trauma Association) é o sistema universal de classificação das fraturas. Sua grande virtude é transformar qualquer fratura de osso longo em um código alfanumérico reproduzível, que comunica localização, morfologia e gravidade — e, com isso, orienta prognóstico, pesquisa e decisão terapêutica.
Diferentemente das classificações epônimas (Rockwood, Gartland, Garden, Schatzker…), que são específicas de uma região, a AO cobre todo o esqueleto com uma única lógica.
A anatomia do código
O código AO tem a estrutura Osso – Segmento – Tipo – Grupo. Exemplo: 32-A3 = fêmur (3), diáfise (2), fratura simples (A), transversa (3).
1º dígito — o osso
| Número | Osso |
|---|---|
| 1 | Úmero |
| 2 | Rádio e ulna |
| 3 | Fêmur |
| 4 | Tíbia e fíbula |
| 5 | Coluna vertebral |
| 6 | Pelve e acetábulo |
| 7 | Mão |
| 8 | Pé |
2º dígito — o segmento
- 1 — Extremidade proximal (epífise/metáfise proximal)
- 2 — Diáfise
- 3 — Extremidade distal (epífise/metáfise distal)
- 4 — Maléolos (exclusivo da tíbia/fíbula: 44)
Tipos A, B e C
Nas diáfises, a letra descreve o contato entre os fragmentos principais:
- Tipo A — Fratura simples: traço único (espiral, oblíquo ou transverso).
- Tipo B — Fratura em cunha: há um terceiro fragmento, mas os fragmentos principais mantêm contato após a redução.
- Tipo C — Fratura multifragmentar (complexa): sem contato entre os fragmentos principais.
Nas extremidades, a letra descreve o envolvimento articular:
- Tipo A — Extra-articular.
- Tipo B — Articular parcial (parte da superfície articular permanece ligada à diáfise).
- Tipo C — Articular completa (superfície articular totalmente separada da diáfise).
Grupos 1, 2 e 3
Cada tipo é subdividido em três grupos, em ordem crescente de energia/complexidade. Na diáfise (ex.: 32 — diáfise do fêmur):
| Grupo 1 | Grupo 2 | Grupo 3 | |
|---|---|---|---|
| A (simples) | Espiral | Oblíqua (≥ 30°) | Transversa (< 30°) |
| B (cunha) | Cunha intacta (espiral) | Cunha de flexão intacta | Cunha fragmentada |
| C (complexa) | Espiral multifragmentar | Segmentar | Irregular (cominutiva) |
Exemplos práticos
- 11-A2 — Úmero proximal, extra-articular, fratura do colo cirúrgico com desvio.
- 23-C1 — Rádio distal, articular completa, simples (a clássica "fratura articular do punho").
- 31-B2 — Fêmur proximal, colo femoral transcervical.
- 42-B2 — Diáfise da tíbia, cunha de flexão intacta.
- 44-B — Fratura maleolar transindesmal (correlaciona-se com Weber B).
Pontos-chave para a prova e para o plantão
- O código sempre cresce em gravidade: A → C e 1 → 3 pioram prognóstico.
- Segmento é definido pelo centro da fratura (regra do quadrado de Heim).
- Nas extremidades, B = articular parcial, C = articular completa — não confunda com a lógica diafisária.
- O tornozelo (44) é a exceção: usa a lógica infra/trans/suprassindesmal (A/B/C), herdada de Weber.
Referências
- Meinberg EG, Agel J, Roberts CS, et al. Fracture and Dislocation Classification Compendium — 2018. J Orthop Trauma. 2018;32(Suppl 1).
- Buckley RE, Moran CG, Apivatthakakul T. AO Principles of Fracture Management. 3ª ed. Thieme; 2017.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.