A lesão de partes moles na fratura fechada
Fratura fechada não significa partes moles preservadas. A classificação de Tscherne (Tscherne e Oestern, 1982) gradua o comprometimento do envelope de partes moles nas fraturas fechadas — contusão, abrasão, descolamento, edema e sofrimento muscular — variáveis que a radiografia não mostra, mas que determinam o risco de complicações de ferida e o momento seguro de operar.
Sua utilidade prática é orientar o timing da osteossíntese definitiva: um envelope de partes moles muito lesado contraindica a fixação interna imediata e favorece uma estratégia de controle de dano (fixador externo em ponte) até que a pele e o subcutâneo se recuperem.
Os graus de Tscherne (fraturas fechadas)
| Grau | Partes moles | Fratura associada | Implicação de manejo |
|---|---|---|---|
| C0 | Lesão mínima ou ausente | Baixa energia, traço simples (torção) | Fixação definitiva precoce em geral segura |
| C1 | Abrasão superficial ou contusão por fragmento interno | Mecanismo leve a moderado | Operar após avaliação da pele; risco baixo |
| C2 | Abrasão profunda contaminada, contusão muscular localizada; síndrome compartimental iminente | Média a alta energia, com cominução | Cautela; considerar aguardar a melhora do envelope |
| C3 | Contusão extensa, esmagamento, síndrome compartimental estabelecida e/ou lesão vascular | Alta energia, muito cominutiva | Controle de dano (fixador externo); definitiva diferida |
Como a classificação orienta a cirurgia
- Graus baixos (C0/C1): a fixação interna definitiva costuma ser segura de forma precoce.
- Graus altos (C2/C3): favorecem controle de dano — estabilização provisória com fixador externo em ponte, tratamento das partes moles e osteossíntese definitiva diferida.
- C2 alerta para síndrome compartimental iminente; C3 pode já ter compartimental estabelecida e/ou lesão vascular — emergências que precedem qualquer decisão de fixação.
Pérola: a decisão de operar depende tanto do envelope de partes moles quanto do
osso. Como se diz na traumatologia, "a fratura é uma lesão de partes moles com um osso quebrado no meio" —
operar através de uma pele contundida e edemaciada é convidar a deiscência e a infecção.
Armadilha: flictenas, edema em "casca de laranja" e enrugamento cutâneo ausente
(wrinkle test negativo) indicam envelope ainda inadequado — não force a fixação definitiva. E
nunca deixe a preocupação com o osso ofuscar o diagnóstico de síndrome compartimental.
Pontos-chave
- Tscherne gradua as partes moles nas fraturas fechadas (C0 a C3).
- Orienta o timing: fixação precoce nos baixos graus, controle de dano nos altos.
- C2 = compartimental iminente; C3 = esmagamento, compartimental estabelecida e/ou lesão vascular.
- Avalie a pele (flictenas, wrinkle test) antes de indicar osteossíntese definitiva.
Referências
- Tscherne H, Oestern HJ. A new classification of soft-tissue damage in open and closed fractures [Die Klassifizierung des Weichteilschadens bei offenen und geschlossenen Frakturen]. Unfallheilkunde. 1982;85(3):111-115.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.