Conteúdo técnico-científico destinado a médicos e profissionais de saúde. Não substitui avaliação médica individualizada.
InícioSistemas universais › Fraturas expostas

Classificação de Gustilo-Anderson: fraturas expostas

Dr. André Peixoto Dr. André Peixoto · Sistemas universais · Leitura de 6 min

A classificação que guia o manejo da fratura exposta

A classificação de Gustilo-Anderson é o sistema universal para graduar as fraturas expostas (fraturas abertas). Ela combina três variáveis — tamanho da ferida, grau de lesão de partes moles e presença de lesão vascular — em graus que se correlacionam diretamente com o risco de infecção, a necessidade de cobertura de partes moles e o prognóstico funcional.

Proposta por Gustilo e Anderson em 1976 e refinada em 1984 com a subdivisão do grau III em IIIA, IIIB e IIIC, a classificação orienta a antibioticoprofilaxia, a estratégia cirúrgica e a comunicação entre a equipe. Sua principal limitação é a baixa concordância interobservador quando aplicada no pronto-socorro — por isso a graduação definitiva é sempre feita no centro cirúrgico.

Os graus de Gustilo-Anderson

GrauFeridaPartes moles / energiaConduta antibiótica
I < 1 cm, limpa Mínima lesão de partes moles; baixa energia; contaminação mínima Cefalosporina de 1ª geração (cefazolina)
II 1–10 cm Lesão moderada de partes moles, sem descolamento ou avulsão extensa Cefalosporina de 1ª geração (cefazolina)
IIIA > 10 cm (ou alta energia) Cominução/alta energia, mas cobertura de partes moles adequada do osso Cefazolina + aminoglicosídeo (cobertura Gram-negativo)
IIIB Extensa, com desperiostização Perda de cobertura / exposição óssea; necessita retalho Cefazolina + aminoglicosídeo
IIIC Qualquer tamanho Lesão arterial que exige reparo para viabilidade do membro Cefazolina + aminoglicosídeo

Independentemente do grau, em feridas com contaminação por solo, água estagnada ou material de fazenda deve-se adicionar cobertura anti-anaeróbia (penicilina em altas doses) pelo risco de Clostridium (gangrena gasosa). A profilaxia antitetânica deve ser revista e atualizada em todos os casos, conforme o estado vacinal.

I < 1 cm, limpa II 1–10 cm IIIA Cobertura adequada IIIB Exposição óssea / retalho IIIC Lesão arterial a reparar
Figura 1 — Progressão dos graus de Gustilo-Anderson: ferida e desperiostização crescentes (I a IIIB) e, no IIIC, lesão arterial (traço vermelho grosso) que exige reparo vascular.

Antibiótico e desbridamento: o que realmente muda o desfecho

Pérola: o antibiótico administrado na primeira hora reduz mais a infecção do que apressar o desbridamento para dentro de um limite arbitrário de horas. Antibiótico cedo, desbridamento bem-feito.
Armadilha: a graduação definitiva é feita no centro cirúrgico, após o desbridamento, quando a real extensão da lesão de partes moles fica visível. Fraturas grau III são frequentemente subestimadas no pronto-socorro — uma ferida pequena na pele pode esconder desluvamento e desperiostização extensos de mecanismo de alta energia.

Pontos-chave

Referências

  1. Gustilo RB, Anderson JT. Prevention of infection in the treatment of one thousand and twenty-five open fractures of long bones. J Bone Joint Surg Am. 1976;58(4):453-458.
  2. Gustilo RB, Mendoza RM, Williams DN. Problems in the management of type III (severe) open fractures: a new classification of type III open fractures. J Trauma. 1984;24(8):742-746.
  3. Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.

Leia também em sistemas universais

Ver todas as classificações de sistemas universais →