A fratura que define o plantão pediátrico
A fratura supracondilar do úmero é a fratura de cotovelo mais comum na criança (pico entre 5 e 7 anos) e a que mais frequentemente exige cirurgia na ortopedia pediátrica. O mecanismo típico é a queda com o cotovelo em extensão (95–98% dos casos). A classificação de Gartland (1959), modificada por Wilkins e adotada pelo Rockwood and Wilkins' Fractures in Children, gradua o desvio do fragmento distal e orienta diretamente a conduta.
A classificação (tipo extensão)
| Tipo | Descrição | Radiografia | Tratamento habitual |
|---|---|---|---|
| I | Sem desvio ou desvio mínimo (< 2 mm) | Coxim gorduroso posterior pode ser o único achado; linha umeral anterior cruza o capítulo | Gesso axilopalmar 3–4 semanas, cotovelo ~90° |
| II | Desviada com cortical posterior íntegra (dobradiça) | Linha umeral anterior passa anterior ao capítulo; extensão do fragmento distal | Redução fechada + fios de Kirschner percutâneos (maioria) |
| III | Desvio completo, sem contato cortical | Fragmento distal posterior (póstero-medial ou póstero-lateral) | Redução fechada + fios percutâneos; aberta se irredutível |
| IV | Instabilidade multidirecional (periósteo circunferencialmente roto) | Instável em flexão e extensão — em geral diagnóstico intraoperatório | Redução e fixação percutânea sob radioscopia |
Avaliação neurovascular: a parte que reprova
- Nervo interósseo anterior (ramo do mediano) — o mais lesado no desvio póstero-lateral: teste do "OK" (flexão da IF do polegar e da IFD do indicador).
- Nervo radial — associado ao desvio póstero-medial: extensão de punho e dedos.
- Nervo ulnar — lesão iatrogênica clássica do fio de Kirschner medial (e o mais lesado nas raras fraturas em flexão).
- Artéria braquial — mão pálida e sem pulso = emergência. Mão rosada sem pulso: reduzir, fixar e observar a perfusão.
Emergências associadas: síndrome compartimental (dor desproporcional + dor à extensão passiva
dos dedos) e a temida contratura isquêmica de Volkmann. A associação com fratura do antebraço
ipsilateral ("cotovelo flutuante") aumenta muito o risco compartimental.
Pérolas radiográficas
- Linha umeral anterior: no perfil, deve cruzar o terço médio do capítulo — se passa anterior, há extensão do fragmento distal.
- Ângulo de Baumann: no AP, avalia o alinhamento coronal (normal ~70–75°; compare com o lado contralateral).
- Coxim gorduroso posterior: sempre patológico — indica derrame articular; no contexto de trauma, trate como fratura oculta.
Tratamento em resumo
- Tipo I: imobilização gessada, controle radiográfico em 1 semana.
- Tipos II a IV: redução fechada e fixação percutânea com fios de Kirschner — configuração lateral divergente é a preferida; fio medial (cruzado) apenas quando necessário para estabilidade, com proteção do nervo ulnar (mini-incisão).
- Redução aberta: fratura irredutível, exposta, ou lesão vascular com mão pálida.
- Fratura tipo III bem perfundida não precisa ser operada de madrugada — pode aguardar o dia, desde que vigiada.
Referências
- Gartland JJ. Management of supracondylar fractures of the humerus in children. Surg Gynecol Obstet. 1959;109:145-154.
- Waters PM, Skaggs DL, Flynn JM. Rockwood and Wilkins' Fractures in Children. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
- Leitch KK, et al. Treatment of multidirectionally unstable supracondylar humeral fractures in children (Gartland tipo IV). J Bone Joint Surg Am. 2006;88(5):980-985.
- AAOS. Management of Pediatric Supracondylar Humerus Fractures — Clinical Practice Guideline. 2011.
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