Por que a fise importa
A placa de crescimento (fise) é a estrutura mais frágil do esqueleto imaturo — mais frágil que os ligamentos e que a cápsula articular. Por isso, o trauma que no adulto causaria uma entorse, na criança frequentemente causa uma fratura fisária: elas correspondem a cerca de 15–30% das fraturas na infância.
A classificação de Salter-Harris (1963) é o sistema universal para essas lesões, valorizada porque correlaciona a anatomia do traço com o prognóstico de crescimento.
Os cinco tipos e o mnemônico SALTR
| Tipo | Mnemônico | Traço da fratura | Risco de distúrbio de crescimento |
|---|---|---|---|
| I | Slipped (escorregou) | Puro descolamento através da fise | Baixo |
| II | Above (acima) | Fise + fragmento metafisário (fragmento de Thurston-Holland) | Baixo (o mais comum — ~75%) |
| III | Lower (abaixo) | Fise + epífise (traço articular) | Moderado — exige redução anatômica |
| IV | Through (através) | Metáfise + fise + epífise | Alto — risco de barra óssea |
| V | Rammed (esmagou) | Compressão axial da fise | Muito alto — diagnóstico geralmente retrospectivo |
Fragmento de Thurston-Holland: é o fragmento metafisário triangular do tipo II —
o sinal radiográfico mais clássico da fratura fisária e um achado obrigatório nas provas.
Princípios de tratamento
- Tipos I e II: em geral redução incruenta e imobilização. Aceitam-se desvios maiores quanto mais jovem a criança e maior o potencial de remodelação. Evitar múltiplas tentativas de redução (cada manipulação agride a fise).
- Tipos III e IV: são fraturas articulares — exigem redução anatômica, frequentemente cirúrgica, com fixação que não cruze a fise quando possível (parafusos epifisários paralelos à placa).
- Tipo V: raramente reconhecido no momento agudo; acompanhamento prolongado para detectar barra fisária e distúrbio de crescimento.
Seguimento é regra: toda fratura fisária deve ser acompanhada por 6–12 meses
(ou até a maturidade em fises de grande crescimento, como fêmur distal e tíbia proximal),
com radiografias seriadas para detectar barra óssea, desvio angular ou discrepância de comprimento.
Pontos-chave
- O tipo II é o mais comum; o fêmur distal é a fise que mais gera sequela quando fraturada.
- Peterson e Ogden propuseram expansões da classificação, mas Salter-Harris permanece o padrão universal.
- Na dúvida entre entorse e Salter-Harris I com radiografia normal, trate como fratura e reavalie em 1–2 semanas.
Referências
- Salter RB, Harris WR. Injuries involving the epiphyseal plate. J Bone Joint Surg Am. 1963;45:587-622.
- Waters PM, Skaggs DL, Flynn JM. Rockwood and Wilkins' Fractures in Children. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
- Herring JA. Tachdjian's Pediatric Orthopaedics. 6ª ed. Elsevier; 2021.
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