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Doença de Legg-Calvé-Perthes: Herring e Catterall

Dr. André Peixoto Dr. André Peixoto · Ortopedia pediátrica · Leitura de 6 min

O que é a doença de Legg-Calvé-Perthes

A doença de Legg-Calvé-Perthes é uma osteonecrose (necrose avascular) idiopática da cabeça femoral na criança em crescimento, tipicamente entre 4 e 8 anos, com predomínio no sexo masculino. A interrupção transitória do suprimento sanguíneo epifisário leva a necrose, colapso, fragmentação e posterior reossificação da cabeça femoral ao longo de meses a anos.

A criança costuma apresentar claudicação insidiosa e dor no quadril, coxa ou joelho (dor referida), com limitação da abdução e da rotação interna. O objetivo do tratamento é preservar a esfericidade e a congruência da cabeça femoral pelo princípio da contenção (containment) — manter a cabeça bem coberta e centrada no acetábulo durante a fase biologicamente plástica.

Classificação do pilar lateral de Herring

A classificação do pilar lateral de Herring é a mais utilizada por sua reprodutibilidade e valor prognóstico. É aplicada no auge da fase de fragmentação e avalia a perda de altura do terço lateral da epífise femoral na radiografia em incidência anteroposterior.

GrupoAltura do pilar lateralPrognóstico
APilar lateral sem perda de alturaBom — bons resultados independentemente da idade
BPerda < 50% da altura do pilar lateral (mantém > 50%)Bom se início ≤ 8 anos; pior nos mais velhos
B/C limítrofePilar estreito (~2–3 mm) ou pouco ossificado, com ~50% de alturaIntermediário
CPerda > 50% da altura do pilar lateralPior — maior risco de deformidade e incongruência
A Pilar lateral íntegro (altura preservada) B Perda < 50% do pilar (mantém > metade) C Perda > 50% do pilar (colapso do terço lateral)
Figura 1 — Grupos de Herring segundo a altura remanescente do pilar lateral (terço lateral da epífise, em teal). Osso viável em bege, colo em azul, área necrótica/colapsada em vermelho.

Outras classificações e sinais

A classificação de Catterall (I–IV) gradua a extensão do envolvimento da cabeça femoral (aproximadamente 25%, 50%, 75% e 100%) e descreve os "sinais de cabeça em risco" (sinal de Gage, calcificação lateral à epífise, subluxação lateral, rarefação metafisária e horizontalização da fise), que indicam pior prognóstico. Os estágios de Waldenström descrevem a evolução radiográfica temporal: inicial/necrose → fragmentação → reossificação → remodelação (cicatrização).

Fatores prognósticos: a idade no início é o fator prognóstico isolado mais importante (início após 6–8 anos tem pior prognóstico, pela menor capacidade de remodelação). Outros fatores: sexo feminino (evolução geralmente pior), maior grau de acometimento e perda da congruência cabeça-acetábulo ao final da evolução.
Não assuma Perthes de imediato: dor no quadril ou joelho com claudicação na criança exige diagnóstico diferencial com sinovite transitória, artrite séptica (emergência), epifisiólise proximal do fêmur no pré-adolescente e displasias epifisárias (acometimento bilateral e simétrico deve levantar essa hipótese). Toda dor de quadril/joelho na criança merece investigação sistemática.

Pontos-chave

Referências

  1. Herring JA, Kim HT, Browne R. Legg-Calvé-Perthes disease. Part II: prospective multicenter study of the effect of treatment on outcome. J Bone Joint Surg Am. 2004;86(10):2121-2134.
  2. Catterall A. The natural history of Perthes' disease. J Bone Joint Surg Br. 1971;53(1):37-53.
  3. Herring JA. Tachdjian's Pediatric Orthopaedics. 6ª ed. Elsevier; 2021.

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