A fratura do dente do áxis
A fratura do processo odontoide (o "dente" do áxis, C2) está entre as fraturas mais comuns da coluna cervical, sobretudo no idoso após queda da própria altura. A classificação de Anderson e D'Alonzo (1974) divide a lesão em três tipos conforme o nível do traço de fratura, e essa localização determina diretamente a estabilidade, o risco de pseudartrose e a conduta.
A relevância clínica está no Tipo II: por ocorrer na junção do dente com o corpo de C2 — região de pequena área de contato e suprimento sanguíneo pobre — é o de maior risco de não-união (pseudartrose).
Os três tipos de Anderson e D'Alonzo
| Tipo | Localização do traço | Característica | Conduta habitual |
|---|---|---|---|
| I | Ápice do odontoide | Avulsão do ligamento alar; raro; em geral estável — atenção à instabilidade occipitocervical associada | Órtese cervical; investigar dissociação occipitocervical |
| II | Base / junção do dente com o corpo de C2 | O mais comum; alta taxa de pseudartrose (área de contato pequena, vascularização pobre) | Individualizada: halo, parafuso odontoide anterior ou artrodese C1-C2 posterior |
| III | Estende-se ao corpo de C2 (osso esponjoso) | Boa superfície de contato e vascularização; melhor consolidação | Frequentemente conservador: colar rígido ou halo |
A modificação de Grauer subdivide o Tipo II conforme a geometria do traço, destacando o subtipo IIA — cominutivo (com fragmentação na base) —, que é particularmente instável e tende a ser encaminhado à fixação cirúrgica em vez do tratamento com halo.
Tipo II: fatores de risco de não-união e opções cirúrgicas
São fatores associados a maior risco de pseudartrose no Tipo II:
- Idade avançada (> 50–65 anos);
- Desvio > 5 mm do fragmento;
- Angulação > 10°;
- Cominução na base (subtipo IIA de Grauer);
- Redução inadequada ou perda de redução no halo.
As principais opções de fixação são:
- Halo (imobilização) — opção não cirúrgica, com maior taxa de falha no idoso;
- Parafuso odontoide anterior — preserva a rotação C1-C2; exige traço favorável e boa qualidade óssea;
- Artrodese C1-C2 posterior — técnicas de Harms (parafusos de massa lateral de C1 e pediculares de C2) ou Magerl (parafuso transarticular); alta taxa de consolidação, ao custo da perda de rotação atlantoaxial.
Pontos-chave
- Tipo I = ápice (avulsão do alar; cheque instabilidade occipitocervical).
- Tipo II = base — o mais comum e o de maior risco de pseudartrose.
- Tipo III = corpo esponjoso — melhor consolidação, frequentemente conservador.
- Risco de não-união no II: idade, desvio > 5 mm, angulação > 10°, cominução (IIA de Grauer).
- Opções no II: halo × parafuso odontoide anterior × artrodese C1-C2 (Harms/Magerl).
Referências
- Anderson LD, D'Alonzo RT. Fractures of the odontoid process of the axis. J Bone Joint Surg Am. 1974;56(8):1663-1674.
- Grauer JN, Shafi B, Hilibrand AS, et al. Proposal of a modified, treatment-oriented classification of odontoid fractures. Spine J. 2005;5(2):123-129.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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