Por que a base do polegar é especial
As fraturas da base do 1º metacarpo merecem atenção própria porque a articulação trapeziometacárpica é a chave da oponência do polegar — e porque músculos potentes deformam esses traços. O abdutor longo do polegar (APL) traciona o metacarpo em direção proximal, dorsal e radial, enquanto o ligamento oblíquo anterior (beak) ancora o pequeno fragmento volar-ulnar. É desse embate que nasce a deformidade de Bennett.
As fraturas se dividem em extra-articulares (melhor prognóstico) e intra-articulares — estas últimas descritas pelos epônimos clássicos Bennett e Rolando.
Classificação das fraturas da base do 1º metacarpo
| Padrão | Descrição | Prognóstico / conduta |
|---|---|---|
| Bennett | Fratura-luxação intra-articular de 2 fragmentos: fragmento volar-ulnar preso pelo ligamento oblíquo anterior (beak); o restante do metacarpo é tracionado proximal/dorsal/radial pelo APL | Instável — redução + fixação percutânea (fios) ou parafuso |
| Rolando | Fratura intra-articular cominutiva em T ou Y | Pior prognóstico — fixação / fixador conforme cominuição |
| Extra-articular | Traço transverso ou oblíquo da base, poupando a articulação | Melhor prognóstico — geralmente redução fechada e imobilização |
Manobra de redução de Bennett: combina tração longitudinal,
abdução e pronação do polegar, com pressão sobre a base do
metacarpo — o objetivo é neutralizar a tração do APL e recolocar o metacarpo sobre o fragmento beak.
A deformidade recidiva se o APL não for neutralizado: o abdutor longo do polegar
mantém a subluxação; por isso a redução isolada tende a perder-se e a fixação
(fios de Kirschner ou parafuso) costuma ser necessária. A incongruência articular residual
predispõe à artrose trapeziometacárpica pós-traumática — reduzir bem a superfície é essencial.
Pontos-chave
- Bennett = fratura-luxação intra-articular de 2 fragmentos; o beak segura o fragmento volar-ulnar.
- O APL traciona o metacarpo proximal/dorsal/radial — é o motor da deformidade.
- Rolando = fratura intra-articular cominutiva (T/Y), de pior prognóstico.
- Extra-articulares (transversas/oblíquas) têm melhor prognóstico e geralmente tratamento fechado.
- Redução incongruente → risco de artrose trapeziometacárpica.
Referências
- Bennett EH. Fractures of the metacarpal bones. Dublin J Med Sci. 1882;73:72-75.
- Rolando S. Fracture de la base du premier métacarpien. Presse Méd. 1910;33:303-304.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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