A fratura e as classificações
A fratura da clavícula é uma das mais comuns do adulto jovem, tipicamente por trauma direto sobre o ombro. Duas classificações se complementam: a de Allman, que divide a clavícula por terços, e a de Neer, que detalha as fraturas do terço distal conforme a relação com os ligamentos coracoclaviculares (CC — conoide e trapezoide).
Allman — grupos por terço
| Grupo | Localização | Frequência / observações |
|---|---|---|
| I | Terço médio | O mais comum (~80%); a maioria trata-se de forma conservadora |
| II | Terço distal / lateral | ~15%; subclassificado por Neer conforme os ligamentos CC |
| III | Terço medial / proximal | Raro (~5%); atenção à lesão mediastinal e à fise medial, que fecha tardiamente (~25 anos) |
Neer — terço distal
| Tipo | Relação com os ligamentos CC | Estabilidade / conduta |
|---|---|---|
| I | Fratura entre os ligamentos CC e a AC, com ligamentos íntegros | Estável — conservador |
| II | Medial aos ligamentos CC (fragmento medial sem ancoragem). IIA: conoide e trapezoide intactos no fragmento lateral; IIB: conoide roto | Instável — alto risco de pseudartrose; frequentemente cirúrgico |
| III | Extensão intra-articular na articulação acromioclavicular | Ligamentos CC intactos; sintomático a longo prazo (artrose AC) |
Conduta em linhas gerais
- Terço médio (Allman I): conservador na maioria (tipoia, analgesia). Considere cirurgia se: encurtamento > 2 cm, cominuição, desvio de 100% (sem contato), fratura exposta, politrauma, comprometimento neurovascular ou ombro flutuante.
- Terço distal (Allman II): Neer I e III geralmente conservadores; Neer II é instável, com alto risco de pseudartrose, e costuma ser cirúrgico.
- Terço medial (Allman III): raro; a maioria conservador, com atenção às estruturas mediastinais.
Pérola: no terço distal, o que define a instabilidade é a posição da fratura em
relação aos ligamentos coracoclaviculares. No Neer II, o fragmento
medial perde a ancoragem CC e é tracionado para cima pelo esternocleidomastóideo, enquanto o membro
puxa o fragmento lateral para baixo — daí a pseudartrose.
Atenção: na fratura do terço médio com fragmento em ponta, avalie a
pele em risco ("tenting" cutâneo), que pode evoluir para fratura exposta e é
indicação cirúrgica. Fique atento também à rara mas grave lesão neurovascular
subclávia (plexo braquial e vasos subclávios).
Pontos-chave
- Allman: I médio (~80%), II distal, III medial (raro, cuidado mediastinal e fise tardia).
- Neer II do terço distal é o instável — alto risco de pseudartrose, frequentemente cirúrgico.
- Indicações cirúrgicas no terço médio: encurtamento > 2 cm, cominuição, desvio de 100%, exposta, politrauma, flutuante.
- Sempre avalie a pele ("tenting") e o estado neurovascular subclávio.
Referências
- Allman FL Jr. Fractures and ligamentous injuries of the clavicle and its articulation. J Bone Joint Surg Am. 1967;49(4):774-784.
- Neer CS 2nd. Fractures of the distal third of the clavicle. Clin Orthop Relat Res. 1968;58:43-50.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
Leia também em membro superior
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