A fratura do olécrano e a classificação de Mayo
O olécrano é a projeção proximal da ulna que forma a metade posterior da articulação ulnoumeral e recebe a inserção do tendão do tríceps. Por ser subcutâneo, fratura-se com facilidade em quedas diretas sobre o cotovelo. A classificação da Clínica Mayo é a mais útil na prática porque combina três variáveis que decidem o tratamento: desvio, cominuição e estabilidade da articulação ulnoumeral.
A lógica é direta: fraturas sem desvio são tratadas de forma conservadora; fraturas desviadas mas estáveis exigem osteossíntese; e fraturas desviadas com instabilidade articular são, na verdade, fraturas-luxação que precisam de reconstrução mais robusta.
A classificação de Mayo
| Tipo | Desvio / estabilidade | Subtipo | Tratamento habitual |
|---|---|---|---|
| I | Sem desvio (≤ 2 mm), articulação estável | IA não cominutiva / IB cominutiva | Conservador: imobilização e mobilização precoce |
| II | Desviada, articulação ulnoumeral estável | IIA não cominutiva | Banda de tensão (obenque) |
| II | Desviada, articulação ulnoumeral estável | IIB cominutiva | Placa de olécrano |
| III | Desviada + instável (subluxação/luxação) | IIIA não cominutiva / IIIB cominutiva | Placa e reconstrução — é uma fratura-luxação |
Escolha do implante: a banda de tensão (obenque com fios de Kirschner
e cerclagem em oito) é ideal para fraturas transversas simples e proximais, pois
converte a tração do tríceps em compressão na superfície articular. Já as fraturas
cominutivas, oblíquas distais ou instáveis exigem placa (de
preferência anatômica, contornando a ponta do olécrano), que mantém o comprimento e não depende da
cortical volar como apoio.
Atenção: em fraturas muito proximais/cominutas ou em idosos de baixa
demanda nas quais a fixação estável é inviável, uma alternativa consagrada é a
excisão do fragmento com avanço do tríceps — desde que a estabilidade ulnoumeral
esteja preservada (não usar se houver instabilidade, pois o coronoide e a incisura troclear
sustentam a articulação). Evite a banda de tensão em fraturas cominutas: ela encurta e incongruência
a articulação.
Pontos-chave
- Mayo classifica por desvio, cominuição e estabilidade ulnoumeral.
- Tipo I (sem desvio) → conservador; Tipo II (desvio, estável) → banda de tensão (IIA) ou placa (IIB); Tipo III (instável) → placa e reconstrução.
- Banda de tensão para transversas simples proximais; placa para cominutivas/oblíquas distais/instáveis.
- O tipo III é, na essência, uma fratura-luxação do cotovelo.
- Excisão + avanço do tríceps é opção no idoso de baixa demanda com articulação estável.
Referências
- Morrey BF, Sanchez-Sotelo J, Morrey ME. Morrey's The Elbow and Its Disorders. 5ª ed. Elsevier; 2018.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
- Cabanela ME, Morrey BF. Fractures of the olecranon. In: The Elbow and Its Disorders. Saunders; 2000.
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