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Classificação de Neer: fratura do úmero proximal

Dr. André Peixoto Dr. André Peixoto · Membro superior · Leitura de 7 min

A lógica dos quatro segmentos

A classificação de Neer é o sistema clássico para as fraturas do úmero proximal. Em vez de contar traços de fratura, ela conta segmentos deslocados — a genialidade do conceito. O úmero proximal é dividido em quatro segmentos anatômicos derivados das placas de crescimento: a cabeça umeral (segmento articular), a tuberosidade maior, a tuberosidade menor e a diáfise (colo cirúrgico).

Um segmento só é contado como "parte" quando está deslocado > 1 cm ou angulado > 45° em relação aos demais. Um traço de fratura sem esse desvio não gera uma nova "parte". Por isso a imensa maioria das fraturas (cerca de 80%) é de 1 parte — minimamente desviada — e recebe tratamento conservador.

As categorias de Neer

CategoriaDescriçãoConduta habitual
1 parteNenhum segmento com desvio > 1 cm ou > 45° (independente do nº de traços) — ~80% dos casosConservador (tipoia, mobilização precoce)
2 partesUm segmento desviado. Mais comum: colo cirúrgico. Também tuberosidade maior isoladaColo cirúrgico: frequentemente conservador ou fixação; tuberosidade maior > 5 mm: fixação
3 partesDois segmentos desviados em relação à cabeça (ex.: colo cirúrgico + tuberosidade maior)Fixação (placa bloqueada / redução aberta)
4 partesCabeça, ambas as tuberosidades e diáfise dissociadas — alto risco vascularIdoso: artroplastia reversa (ou conservador); jovem: fixação preservando a cabeça
Fratura-luxaçãoQualquer das acima + luxação glenoumeral (anterior ou posterior)Redução + fixação; artroplastia se cabeça inviável
Head-splittingFratura por impacção/clivagem da superfície articular da cabeçaArtroplastia (reversa ou parcial), sobretudo se > 40% da superfície
cabeça tub. maior tub. menor diáfise Segmentos 4 partes anatômicas 1 parte sem desvio · ~80% 2 partes colo cirúrgico 3 partes + tuberosidade 4 partes todos dissociados
Figura 1 — Os quatro segmentos do úmero proximal (cabeça e diáfise em bege, tuberosidades em azul) e a progressão de 1 a 4 partes de Neer; traços de fratura em vermelho.
Pérola: o número de partes não é o número de traços de fratura, e sim o número de segmentos que ultrapassam o critério de Neer — desvio > 1 cm ou angulação > 45°. Uma fratura com vários traços, mas sem desvio, ainda é 1 parte e tem excelente prognóstico com tratamento conservador.
Atenção: o risco de necrose avascular da cabeça sobe muito nas fraturas de 4 partes e nas fraturas-luxação. Os critérios de Hertel preveem isquemia da cabeça quando a extensão metafisária (calcar) posteromedial é curta (< 8 mm), há ruptura da charneira medial e o padrão é anatômico do colo (fratura do colo anatômico). Avalie sempre a viabilidade da cabeça antes de optar por fixação em vez de artroplastia.

Pontos-chave

Referências

  1. Neer CS 2nd. Displaced proximal humeral fractures. I. Classification and evaluation. J Bone Joint Surg Am. 1970;52(6):1077-1089.
  2. Neer CS 2nd. Displaced proximal humeral fractures. II. Treatment of three-part and four-part displacement. J Bone Joint Surg Am. 1970;52(6):1090-1103.
  3. Hertel R, Hempfing A, Stiehler M, Leunig M. Predictors of humeral head ischemia after intracapsular fracture of the proximal humerus. J Shoulder Elbow Surg. 2004;13(4):427-433.
  4. Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.

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