Fratura transtrocantérica: estabilidade guia o implante
A fratura transtrocantérica (intertrocantérica) é extracapsular — ocorre entre os trocânteres maior e menor, em osso metafisário bem vascularizado. Por isso, ao contrário do colo femoral, a necrose avascular é rara e o objetivo é a fixação estável para consolidação. A classificação AO/OTA 31-A organiza esses padrões e, sobretudo, sinaliza a estabilidade.
Dois pilares definem estabilidade: a integridade da cortical posteromedial (calcar) — que resiste às forças de compressão — e a competência da parede lateral, essencial para o funcionamento do parafuso dinâmico de quadril (DHS).
Classificação AO/OTA 31-A
| Grupo | Padrão | Estabilidade | Implante sugerido |
|---|---|---|---|
| 31-A1 | Simples, 2 fragmentos; traço único com calcar íntegro | Estável | DHS (parede lateral competente) ou haste cefalomedular |
| 31-A2 | Multifragmentar; fragmento trocantérico menor / parede posteromedial (calcar) comprometida | Instável | Haste cefalomedular (preferida) |
| 31-A3 | Traço reverso/transverso ou extensão subtrocantérica | Instável | Haste cefalomedular (DHS contraindicado) |
Estabilidade, parede lateral e escolha do implante
- Parede lateral competente + padrão estável (A1): o DHS funciona bem — o parafuso desliza e comprime o foco de forma controlada.
- Parede lateral incompetente ou fratura instável (A2 fragmentada): preferir haste cefalomedular, que oferece suporte intramedular e limita a medialização.
- A3 (traço reverso/subtrocantérica): haste cefalomedular — é a indicação clássica de dispositivo intramedular.
Pérola: a escolha do implante depende menos do "nome" e mais de dois checkpoints —
a fratura é estável? A parede lateral está íntegra? Um "não" em qualquer um deles
empurra a decisão para a haste intramedular.
Atenção: não use DHS no traço reverso (31-A3). Nesse padrão, o deslizamento do
parafuso leva à medialização da diáfise e à falha do implante. A fixação correta é com
haste cefalomedular.
Pontos-chave
- A transtrocantérica é extracapsular: foco em fixação estável, não em risco de necrose.
- 31-A1 estável; A2 e A3 instáveis.
- Estabilidade depende do calcar (posteromedial) e da parede lateral.
- Parede lateral íntegra + A1 → DHS; parede incompetente / A2 instável / A3 → haste cefalomedular.
- Traço reverso (A3) e DHS não combinam — medializa e falha.
Referências
- Meinberg EG, Agel J, Roberts CS, et al. Fracture and Dislocation Classification Compendium — 2018. J Orthop Trauma. 2018;32(Suppl 1):S1-S170.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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