Conteúdo técnico-científico destinado a médicos e profissionais de saúde. Não substitui avaliação médica individualizada.
InícioMembro inferior e pelve › Espinha tibial

Fratura da espinha tibial: Meyers-McKeever

Dr. André Peixoto Dr. André Peixoto · Membro inferior e pelve · Leitura de 5 min

A fratura da espinha tibial e o LCA da criança

A fratura da espinha tibial (ou eminência intercondilar) é uma avulsão óssea da inserção tibial do ligamento cruzado anterior (LCA). Ocorre tipicamente em crianças e adolescentes, cujo osso esponjoso da eminência ainda é mais frágil do que o próprio ligamento — por isso a estrutura cede pelo osso, e não pelas fibras. É, funcionalmente, o equivalente ósseo da lesão do LCA no esqueleto imaturo.

A classificação de Meyers-McKeever (1959), posteriormente modificada por Zaricznyj (1977) com a inclusão do tipo cominutivo, organiza a lesão pelo grau de desvio do fragmento avulsionado — parâmetro que orienta diretamente a decisão entre imobilização e fixação.

A classificação de Meyers-McKeever (modificada por Zaricznyj)

TipoDesvio do fragmentoDescriçãoConduta habitual
INão desviada / mínimaFragmento anterior minimamente elevado, sem deslocamento significativoConservador: imobilização com o joelho em extensão
IIParcial (dobradiça posterior íntegra)Porção anterior elevada em "bico de pássaro", com a margem posterior ainda ligada ao leito ósseoRedução com o joelho em extensão → imobilização se reduzir; fixação se irredutível
IIICompletaFragmento totalmente separado e desviado do seu leito na tíbia proximalCirúrgico: fixação (sutura ou parafuso), habitualmente artroscópica
IVCompleta + cominuição (Zaricznyj)Fragmento cominutivo e/ou rodadoCirúrgico: fixação/reconstrução do fragmento

A chave terapêutica está na redutibilidade em extensão: nos tipos I e II, a extensão do joelho tende a "assentar" o fragmento de volta ao leito (o côndilo femoral empurra a eminência para baixo). Quando isso ocorre, a imobilização em extensão é suficiente. Nos tipos III e IV — e no tipo II que não reduz —, indica-se fixação.

Tipo I Não desviada Tipo II Bico de pássaro (dobradiça) Tipo III Totalmente separada
Figura 1 — Tíbia proximal (perfil) com a eminência intercondilar e o LCA (linha teal). O fragmento (azul, contorno vermelho) está reduzido no tipo I, elevado anteriormente com dobradiça posterior no tipo II e completamente destacado do seu leito no tipo III.
Bloqueio à extensão: quando o joelho não completa a extensão, suspeite de interposição de partes moles — o corno anterior do menisco medial ou o ligamento intermeniscal (transverso) pode ficar preso sob o fragmento, impedindo a redução fechada. Nesses casos, a redução em extensão falha e a fixação (com desimpactação do tecido interposto) torna-se necessária. A artroscopia permite reduzir o fragmento, liberar a interposição e fixar com sutura transóssea ou parafuso.
Atenção: mesmo após consolidação anatômica, pode persistir frouxidão residual do LCA (o ligamento cicatriza alongado) e bloqueio mecânico por consolidação viciosa do fragmento elevado, limitando a extensão. Avalie lesões associadas (meniscos, cartilagem, ligamentos colaterais) — a ressonância magnética é útil na suspeita de interposição e de lesões concomitantes.

Pontos-chave

Referências

  1. Meyers MH, McKeever FM. Fractures of the intercondylar eminence of the tibia. J Bone Joint Surg Am. 1959;41(2):209-222.
  2. Zaricznyj B. Avulsion fracture of the tibial eminence: treatment by open reduction and pinning. J Bone Joint Surg Am. 1977;59(8):1111-1114.
  3. Flynn JM, Skaggs DL, Waters PM. Rockwood and Wilkins' Fractures in Children. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.

Leia também em membro inferior e pelve

Ver todas as classificações de membro inferior e pelve →