A fratura do tornozelo e o papel da sindesmose
A fratura do tornozelo é uma das lesões do aparelho locomotor mais frequentes no adulto. A classificação de Weber (AO/Danis-Weber) organiza as fraturas pela altura do traço na fíbula em relação à sindesmose tibiofibular distal — referência anatômica que prediz a integridade sindesmótica e, portanto, a estabilidade. Quanto mais alta a fratura, maior a probabilidade de lesão da sindesmose e da membrana interóssea.
Weber é uma leitura morfológica (na radiografia) e correlaciona-se com o segmento maleolar da AO/OTA (44-A, 44-B, 44-C). A classificação de Lauge-Hansen, por sua vez, é mecanicista: combina a posição do pé no momento do trauma com a direção da força deformante, explicando o padrão sequencial de lesões.
A classificação de Weber
| Tipo | Nível da fratura da fíbula | Sindesmose | Estabilidade | Conduta habitual |
|---|---|---|---|---|
| A | Infrassindesmal (abaixo da sindesmose) | Íntegra | Geralmente estável | Conservador (gesso/bota) na maioria; cirurgia se houver componente medial instável |
| B | Transsindesmal (ao nível da sindesmose, traço espiral) | Lesão variável (avaliar) | Variável — depende da coluna medial | Conservador se estável; fixação se desviada/instável ou lesão medial |
| C | Suprassindesmal (acima da sindesmose) | Rota (sindesmose e membrana interóssea) | Instável | Cirúrgico: fixação da fíbula ± parafuso/sutura sindesmótica |
A fratura de Maisonneuve é uma variante suprassindesmal (padrão Weber C) em que o traço da fíbula é alto, na fíbula proximal, com ruptura extensa da membrana interóssea e da sindesmose — frequentemente acompanhada de lesão do maléolo medial ou do ligamento deltoide.
Lauge-Hansen — o mecanismo
- Supinação-adução (SA) — traço transverso/avulsão da fíbula abaixo da sindesmose e fratura vertical do maléolo medial.
- Supinação-rotação externa (SER) — o padrão mais comum; correlaciona-se com Weber B (espiral da fíbula).
- Pronação-abdução (PA) — força em abdução, com fratura da fíbula acima da sindesmose.
- Pronação-rotação externa (PER) — fratura alta da fíbula; inclui o padrão de Maisonneuve.
Pontos-chave
- Weber grada pela altura da fratura da fíbula: A infra, B trans, C suprassindesmal.
- Weber C = sindesmose e membrana interóssea rotas → instável, geralmente cirúrgico.
- Correlação AO: 44-A / 44-B / 44-C.
- SER é o mecanismo mais comum de Lauge-Hansen e costuma corresponder ao Weber B.
- No Weber C / PER, procure sempre a fratura de Maisonneuve — palpe e radiografe a fíbula proximal se houver dor.
- A coluna medial (maléolo medial/deltoide) determina se uma fratura lateral é estável.
Referências
- Weber BG. Die Verletzungen des oberen Sprunggelenkes. Bern: Verlag Hans Huber; 1966.
- Lauge-Hansen N. Fractures of the ankle II: combined experimental-surgical and experimental-roentgenologic investigations. Arch Surg. 1950;60(5):957-985.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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