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Classificação de Judet e Letournel: fratura do acetábulo

Dr. André Peixoto Dr. André Peixoto · Membro inferior e pelve · Leitura de 8 min

As duas colunas: a lógica de Judet e Letournel

A classificação de Judet e Letournel revolucionou o entendimento das fraturas do acetábulo ao propor o conceito das duas colunas. O acetábulo é sustentado por um arco ósseo em forma de “Y invertido”, cujos braços são a coluna anterior (íliopúbica) — que vai da crista ilíaca à sínfise púbica — e a coluna posterior (ilioisquiática) — que desce do ílio ao ísquio. A superfície articular de carga (teto/sourcil) fica na confluência das duas colunas. Compreender qual coluna está fraturada é o que orienta a via de acesso e o prognóstico.

Letournel dividiu as fraturas em 5 padrões elementares (envolvem uma estrutura ou uma coluna) e 5 padrões associados (combinações), sempre analisados nas incidências radiográficas de rotina e nas oblíquas de Judet (alar e obturatriz), complementadas obrigatoriamente pela tomografia computadorizada.

Os 10 padrões de Letournel

GrupoPadrãoCaracterísticas
ElementaresParede posteriorFratura do lábio posterior; frequentemente associada à luxação posterior do quadril
Coluna posteriorInterrompe a linha ilioisquiática; traço atinge a incisura isquiática
Parede anteriorFratura do lábio anterior; menos comum, mais frequente no idoso
Coluna anteriorInterrompe a linha iliopectínea; extensão variável (baixa a alta)
TransversaTraço horizontal único que separa acetábulo em porção superior e inferior, dividindo as duas colunas
AssociadasColuna posterior + parede posteriorCombinação dos dois padrões posteriores
Transversa + parede posteriorTraço transverso somado à fratura do lábio posterior
Em TTransversa com traço vertical adicional que separa as duas colunas inferiormente
Coluna anterior + hemitransversa posteriorColuna anterior associada a traço transverso parcial posterior
Das duas colunas (both-column)A mais complexa; nenhum fragmento articular permanece ligado ao esqueleto axial (“acetábulo flutuante”) — sinal do esporão (spur sign) na oblíqua obturatriz
iliopectínea ilioisquiática Hemipelve AP Parede post. luxação posterior Transversa separa as 2 colunas
Figura 1 — Hemipelve em incidência AP: a linha teal contínua representa a coluna anterior (iliopectínea) e a tracejada azul-escura a coluna posterior (ilioisquiática). Os painéis mostram a fratura de parede posterior (com luxação) e a transversa, que cruza as duas colunas.

As 6 linhas radiográficas de Letournel (incidência AP)

Incidências oblíquas de Judet (45°): a obturatriz mostra melhor a coluna anterior e a parede posterior (e revela o spur sign das duas colunas); a alar mostra melhor a coluna posterior e a parede anterior. A TC com reconstrução é fundamental para definir o traço, fragmentos intra-articulares, impacção marginal e o grau de acometimento do teto.
Atenção: a fratura da parede posterior pode acompanhar luxação posterior do quadril — uma emergência. Avalie a estabilidade articular após a redução e documente sempre a função do nervo ciático (especialmente o componente fibular) antes e depois de qualquer manobra. Congruência articular imperfeita no teto de carga é preditor direto de artrose pós-traumática.

Conduta em resumo

Pontos-chave

Referências

  1. Judet R, Judet J, Letournel E. Fractures of the acetabulum: classification and surgical approaches for open reduction. J Bone Joint Surg Am. 1964;46:1615-1646.
  2. Letournel E, Judet R. Fractures of the Acetabulum. 2ª ed. Springer-Verlag; 1993.
  3. Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.

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