O pilão tibial: osso e partes moles
A fratura do pilão tibial (plafond) acomete a superfície articular distal da tíbia, tipicamente por carga axial de alta energia (queda de altura, acidente automobilístico). A classificação de Rüedi-Allgöwer gradua o desvio e a cominuição da superfície articular.
Mais do que o padrão ósseo, é a lesão de partes moles que determina as complicações — e ela dita o momento da cirurgia definitiva.
Classificação de Rüedi-Allgöwer
| Tipo | Superfície articular | Cominuição |
|---|---|---|
| I | Fratura articular sem desvio significativo | Ausente/mínima |
| II | Desvio articular significativo (incongruência) | Sem cominuição importante |
| III | Cominuição e impactação metafisária-articular | Grave — pior prognóstico |
Correlaciona-se com a AO/OTA 43 (B parcial articular, C completa articular).
Pérola — estratégia estagiada: na alta energia, faz-se primeiro fixador externo
em ponte (± fixação da fíbula) para ligamentotaxia e repouso das partes moles; a
osteossíntese definitiva (placa) só depois que o edema regride, geralmente 7–21 dias,
quando reaparece a ruga cutânea ("wrinkle sign").
Armadilha: operar precocemente por via aberta um pilão de alta energia com partes moles
comprometidas leva a taxas altíssimas de deiscência e infecção. Respeite o envelope
de partes moles — o osso espera.
Pontos-chave
- O tipo III (cominuição/impactação) tem o pior prognóstico funcional.
- A TC define o planejamento; a lesão de partes moles define o tempo cirúrgico.
- Estratégia em dois tempos: fixador externo agora, placa depois.
Referências
- Rüedi TP, Allgöwer M. The operative treatment of intra-articular fractures of the lower end of the tibia. Clin Orthop Relat Res. 1979;(138):105-110.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, et al. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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