O anel pélvico e o conceito de estabilidade
A fratura do anel pélvico é uma lesão potencialmente fatal, com espectro que vai da avulsão benigna à desagregação instável associada a choque hemorrágico. Duas classificações se complementam: Tile (base da AO), que organiza pela estabilidade, e Young-Burgess, que organiza pelo mecanismo de trauma.
O princípio que une ambas: é a integridade do anel posterior (sacro, articulações sacroilíacas e seus ligamentos) que determina a estabilidade. Lesões anteriores isoladas (sínfise, ramos) raramente são instáveis se o complexo posterior está preservado.
Tile × Young-Burgess
| Tile | Estabilidade | Anel posterior | Correlação Young-Burgess |
|---|---|---|---|
| A | Estável | Íntegro | Avulsões, fratura de asa do ilíaco, ramos isolados |
| B | Parcialmente estável (instabilidade rotacional, vertical estável) | Parcialmente lesado | B1 = APC (“livro aberto”); B2 = LC (compressão lateral) |
| C | Instável (rotacional e vertical) | Completamente roto | VS (cisalhamento vertical); APC III |
Young-Burgess descreve a força deformante e gradua a energia:
- APC (compressão anteroposterior) I / II / III — abertura em “livro aberto” com diástase progressiva da sínfise e dos ligamentos sacroilíacos.
- LC (compressão lateral) I / II / III — impactação; fraturas de ramos e do sacro, rotação interna da hemipelve.
- VS (cisalhamento vertical) — desvio cranial de toda a hemipelve; lesão completa do anel posterior.
- CM (mecanismo combinado) — padrões mistos.
Estabilidade é posterior: a chave prognóstica é o complexo posterior (sacro e articulações
sacroilíacas). Um “livro aberto” parcial (APC I/II) mantém os ligamentos sacroilíacos posteriores íntegros
e é rotacionalmente instável, mas verticalmente estável (Tile B). Quando o complexo posterior se rompe por completo
(APC III, VS), a pelve torna-se instável nos dois planos (Tile C).
Emergência: fratura pélvica instável + choque exige ação imediata. Nos padrões APC III e VS há
risco de sangramento maciço do plexo venoso pré-sacral e das artérias ilíacas internas.
Aplique a cinta pélvica (binder) na altura dos trocânteres para reduzir o volume e acione o protocolo
de hemorragia (transfusão maciça, angioembolização e/ou packing pré-peritoneal).
Pontos-chave
- Tile classifica por estabilidade (A estável, B rotacional, C rotacional e vertical); Young-Burgess por mecanismo (APC, LC, VS, CM).
- A lesão do anel posterior determina a estabilidade — não a lesão anterior isolada.
- Tile B1 ≈ APC (livro aberto); Tile B2 ≈ LC; Tile C ≈ VS / APC III.
- APC III e VS = maior risco de instabilidade hemodinâmica.
- Na suspeita de instabilidade com choque: binder pélvico precoce e protocolo de hemorragia.
Referências
- Tile M. Pelvic ring fractures: should they be fixed? J Bone Joint Surg Br. 1988;70(1):1-12.
- Burgess AR, Eastridge BJ, Young JWR, et al. Pelvic ring disruptions: effective classification system and treatment protocols. J Trauma. 1990;30(7):848-856.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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