A fratura ao redor da prótese
A fratura periprotética do fêmur ocorre ao redor de uma haste de artroplastia do quadril e tornou-se cada vez mais comum com o envelhecimento populacional e o aumento das artroplastias. A conduta não depende apenas da linha de fratura, mas sobretudo do comportamento da prótese. A classificação de Vancouver (Duncan e Masri, 1995) organiza a decisão a partir de três fatores: o local da fratura, a estabilidade da haste e a qualidade do estoque ósseo.
Seu grande mérito é traduzir o intraoperatório em conduta: o que separa uma osteossíntese de uma revisão da haste é, quase sempre, saber se a haste continua bem fixada ao osso.
A classificação de Vancouver
| Tipo | Local | Estabilidade da haste | Estoque ósseo | Tratamento habitual |
|---|---|---|---|---|
| A | Região trocantérica (AG = trocânter maior; AL = trocânter menor) | Não afetada | Bom | Geralmente conservador; fixação se desvio significativo ou instabilidade |
| B1 | Ao redor ou logo distal à ponta da haste | Estável | Bom | Fixação com placa e/ou cerclagem (haste preservada) |
| B2 | Ao redor ou logo distal à ponta da haste | Instável (solta) | Bom | Revisão da haste, geralmente haste longa não cimentada |
| B3 | Ao redor ou logo distal à ponta da haste | Instável (solta) | Pobre | Revisão com haste de fixação distal, enxerto estruturado ou prótese tumoral/de substituição |
| C | Bem distal à ponta da haste | Não afetada | Variável | Tratar como fratura isolada; a haste não interfere |
Conceito-chave: no tipo B, quem decide a conduta é a estabilidade da haste,
não apenas a linha de fratura. Haste estável (B1) permite osteossíntese com placa/cerclagem; haste solta
(B2/B3) exige revisão. Na dúvida entre B1 e B2, avalie a fixação da haste no intraoperatório
antes de definir a estratégia.
Atenção: subestimar a soltura da haste — tratar um B2 como se fosse B1, apenas com placa —
leva à falha da fixação e à necessidade de reoperação. Sempre confirme a estabilidade da
haste antes de optar por osteossíntese isolada; sinais radiográficos de soltura ou dor prévia à fratura
devem aumentar a suspeita.
Pontos-chave
- Vancouver combina três fatores: local, estabilidade da haste e estoque ósseo.
- O tipo B (ponta da haste) é o mais relevante clinicamente e o que mais gera erro de conduta.
- B1 (haste estável) = placa/cerclagem; B2 (haste solta, osso bom) = revisão da haste; B3 (haste solta, osso pobre) = revisão com fixação distal, enxerto ou prótese de substituição.
- O tipo C está distal à haste e é tratado como fratura isolada — a prótese não interfere.
- Confirme a estabilidade da haste no intraoperatório sempre que houver dúvida entre B1 e B2.
Referências
- Duncan CP, Masri BA. Fractures of the femur after hip replacement. Instr Course Lect. 1995;44:293-304.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
- Brady OH, Garbuz DS, Masri BA, Duncan CP. The reliability and validity of the Vancouver classification of femoral fractures after hip replacement. J Arthroplasty. 2000;15(1):59-62.
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