Por que a tomografia manda no calcâneo
A fratura do calcâneo é a fratura do tarso mais comum e, na maioria das vezes, resulta de queda de altura com carga axial. O que define prognóstico e conduta é o acometimento da faceta posterior da articulação subtalar. A classificação de Sanders (1993) é baseada na tomografia computadorizada e conta o número de fragmentos articulares.
O corte de referência é o coronal, no ponto mais largo da faceta posterior. Duas linhas hipotéticas (traçadas de lateral para medial) dividem a faceta em três colunas — A (lateral), B (central) e C (medial) — e a posição das fraturas nessas colunas nomeia os subtipos.
A classificação de Sanders
| Tipo | Fragmentos articulares | Descrição | Prognóstico / conduta |
|---|---|---|---|
| I | — | Não desviada (< 2 mm), independentemente do número de linhas de fratura | Bom; tratamento conservador |
| II | 2 fragmentos (1 linha) | Subtipos IIA, IIB, IIC conforme a linha esteja em A, B ou C | Bom a moderado; redução e fixação (RAFI) |
| III | 3 fragmentos (2 linhas) | Subtipos IIIAB, IIIAC, IIIBC; há um fragmento central deprimido | Moderado a reservado; RAFI mais exigente |
| IV | 4 ou mais fragmentos | Cominutiva, altamente fragmentada | Pior prognóstico; considerar artrodese subtalar primária |
A regra é direta: quanto mais fragmentos articulares, pior o resultado funcional e maior o risco de artrose subtalar. Dois ângulos radiográficos complementam a avaliação: o ângulo de Böhler (normal ~20–40°, reduz ou inverte na fratura por depressão da faceta) e o ângulo de Gissane (ângulo crucial, normal ~120–145°, que se altera com a impactação).
Pontos-chave
- Sanders classifica pela TC coronal no ponto mais largo da faceta posterior.
- Tipo I não desviada; II = 2 fragmentos; III = 3 fragmentos; IV = 4 ou mais (cominutiva).
- As colunas A (lateral), B (central) e C (medial) nomeiam os subtipos.
- Mais fragmentos = pior prognóstico; no tipo IV, considerar artrodese subtalar primária.
- Böhler (20–40°) e Gissane são medidas de rastreio na radiografia.
- Sempre investigar coluna toracolombar e síndrome compartimental do pé.
Referências
- Sanders R, Fortin P, DiPasquale T, Walling A. Operative treatment in 120 displaced intraarticular calcaneal fractures: results using a prognostic computed tomography scan classification. Clin Orthop Relat Res. 1993;(290):87-95.
- Sanders R. Displaced intra-articular fractures of the calcaneus. J Bone Joint Surg Am. 2000;82(2):225-250.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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