Conteúdo técnico-científico destinado a médicos e profissionais de saúde. Não substitui avaliação médica individualizada.

Classificação de Sanders: fratura do calcâneo

Dr. André Peixoto Dr. André Peixoto · Membro inferior e pelve · Leitura de 6 min

Por que a tomografia manda no calcâneo

A fratura do calcâneo é a fratura do tarso mais comum e, na maioria das vezes, resulta de queda de altura com carga axial. O que define prognóstico e conduta é o acometimento da faceta posterior da articulação subtalar. A classificação de Sanders (1993) é baseada na tomografia computadorizada e conta o número de fragmentos articulares.

O corte de referência é o coronal, no ponto mais largo da faceta posterior. Duas linhas hipotéticas (traçadas de lateral para medial) dividem a faceta em três colunas — A (lateral), B (central) e C (medial) — e a posição das fraturas nessas colunas nomeia os subtipos.

A classificação de Sanders

TipoFragmentos articularesDescriçãoPrognóstico / conduta
INão desviada (< 2 mm), independentemente do número de linhas de fraturaBom; tratamento conservador
II2 fragmentos (1 linha)Subtipos IIA, IIB, IIC conforme a linha esteja em A, B ou CBom a moderado; redução e fixação (RAFI)
III3 fragmentos (2 linhas)Subtipos IIIAB, IIIAC, IIIBC; há um fragmento central deprimidoModerado a reservado; RAFI mais exigente
IV4 ou mais fragmentosCominutiva, altamente fragmentadaPior prognóstico; considerar artrodese subtalar primária

A regra é direta: quanto mais fragmentos articulares, pior o resultado funcional e maior o risco de artrose subtalar. Dois ângulos radiográficos complementam a avaliação: o ângulo de Böhler (normal ~20–40°, reduz ou inverte na fratura por depressão da faceta) e o ângulo de Gissane (ângulo crucial, normal ~120–145°, que se altera com a impactação).

Tipo I Não desviada Tipo II 2 fragmentos Tipo III 3 fragmentos Tipo IV 4+ fragmentos
Figura 1 — Corte coronal da faceta posterior do calcâneo. Da esquerda para a direita: Tipo I (superfície íntegra), II (1 linha / 2 fragmentos), III (2 linhas / 3 fragmentos, com fragmento central deprimido) e IV (cominutiva).
A TC coronal é obrigatória para classificar Sanders — o corte no ponto mais largo da faceta posterior define o número de fragmentos e a coluna (A/B/C) de cada linha. A radiografia simples (perfil e axial de Harris) mede Böhler e Gissane, mas não permite o estadiamento articular.
Atenção ao mecanismo: queda de altura com carga axial exige buscar lesões associadas — fraturas da coluna toracolombar, do platô tibial e do pilão. Vigie a síndrome compartimental do pé (dor desproporcional, edema tenso), que pode evoluir para dedos em garra se não tratada.

Pontos-chave

Referências

  1. Sanders R, Fortin P, DiPasquale T, Walling A. Operative treatment in 120 displaced intraarticular calcaneal fractures: results using a prognostic computed tomography scan classification. Clin Orthop Relat Res. 1993;(290):87-95.
  2. Sanders R. Displaced intra-articular fractures of the calcaneus. J Bone Joint Surg Am. 2000;82(2):225-250.
  3. Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.

Leia também em membro inferior e pelve

Ver todas as classificações de membro inferior e pelve →