A fratura escondida na luxação do quadril
A fratura da cabeça femoral ocorre quase sempre associada a uma luxação do quadril, tipicamente posterior, pelo mecanismo do painel (dashboard injury) — o joelho fletido bate no painel e transmite a força pelo fêmur. A classificação de Pipkin (1957) organiza essas fraturas conforme a relação do traço com a fóvea (inserção do ligamento redondo) e a associação com fratura do colo femoral ou do acetábulo. A referência anatômica é essencial: fragmentos abaixo da fóvea não sustentam carga; acima dela, sim.
A classificação de Pipkin
| Tipo | Descrição | Prognóstico / conduta |
|---|---|---|
| I | Fratura inferior à fóvea (abaixo da inserção do ligamento redondo); fragmento fora da zona de carga | Melhor prognóstico; excisão de pequenos fragmentos ou fixação se grande |
| II | Fratura superior à fóvea; envolve a zona de carga da cabeça | Pior que o tipo I; tende à fixação anatômica do fragmento |
| III | Pipkin I ou II + fratura do colo femoral | Péssimo prognóstico; alto risco de necrose avascular |
| IV | Pipkin I ou II + fratura do acetábulo | Avaliar estabilidade acetabular; conduta combinada |
Conduta em resumo
- Redução urgente da luxação — idealmente em menos de 6 horas para reduzir o risco de necrose avascular.
- Fragmentos pequenos infrafoveais (tipo I): costumam ser excisados, pois não sustentam carga.
- Fragmentos suprafoveais (tipo II): fixação anatômica (parafusos sem cabeça/enterrados), por participarem da zona de carga.
- Pipkin III: no jovem, tentativa de redução e fixação urgentes; no idoso, artroplastia é frequentemente a melhor opção.
- Pipkin IV: tratar conforme o padrão acetabular (estabilidade e congruência do teto).
Por que a fóvea importa: a inserção do ligamento redondo divide a cabeça em uma porção
inferomedial que não sustenta peso e uma porção superolateral de carga. Fraturas que
poupam a zona de carga (tipo I) toleram melhor a excisão do fragmento; as que a envolvem (tipo II)
exigem reconstrução anatômica da superfície articular.
Emergência ortopédica: a luxação do quadril deve ser reduzida o mais rápido possível
— o tempo até a redução é o principal fator modificável do risco de necrose avascular
da cabeça femoral. Documente sempre a função do nervo ciático antes e depois da redução
e obtenha TC pós-redução para excluir fragmentos intra-articulares e incongruência.
Pontos-chave
- Pipkin I = abaixo da fóvea (não sustenta carga); Pipkin II = acima (zona de carga, pior).
- Pipkin III (+ colo) tem o pior prognóstico pelo alto risco de NAV.
- Pipkin IV = fratura da cabeça + acetábulo.
- Luxação do quadril é emergência: reduzir em menos de 6 h.
- Excisar pequenos fragmentos infrafoveais; fixar os suprafoveais de carga.
Referências
- Pipkin G. Treatment of grade IV fracture-dislocation of the hip. J Bone Joint Surg Am. 1957;39(5):1027-1042.
- Tornetta P, Ricci WM, Court-Brown CM, McQueen MM, McKee M. Rockwood and Green's Fractures in Adults. 9ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
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